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25/04/2014

Saúde e qualidade de vida para quem produz e consome orgânicos

Sítio Aldeia Verde é a única propriedade certificada em Maceió

Um cenário longínquo, onde homens, mulheres e até crianças apresentam-se em uma situação comovente, com roupas aos flagelos e alparcatas velhas. O brilho nos olhos não é tão intenso como o do sol escaldante e reluzente nas enxadas e facões, que no vai e vem dos movimentos ameaçam as mãos e pés desprotegidos, mas sem o risco de mutilar a fé em São Pedro e tantos outros santos. A terra ainda fértil para os alimentos parece infértil para os sonhos; das sementes plantadas, o brotar de mais um dia da rotina puxada para subsistência.

Popularmente, esse é o imaginário da vida no campo. Na realidade, outras peculiaridades tornam a situação ainda mais piedosa. Mas a condenação perpétua de muitas famílias começa a ser transformada por meio da adoção de práticas agroecológicas, como aconteceu com a família de Edmilson Mendes da Silva.

Agricultura sustentável como diferencial

Natural de Colônia Leopoldina, interior de Alagoas, Edmilson deixou para trás sua terra, na esperança de uma vida menos impiedosa. A paisagem da nova janela já não tinha mais verde, mas era o ano inteiro cinza, a cor dos concretos. Os mesmos problemas, agora em outro cenário. O desgaste físico e os riscos agora eram nos canteiros das obras, como ajudante de pedreiro.

No entanto, há oito anos sua história foi reescrita. Uma oportunidade de trabalho no Sítio Aldeia Verde, de propriedade do engenheiro agrônomo Ricardo Ramalho, e sua esposa Rose, transformou completamente a vida do Edmilson e sua família. Lá, mais do que a legislação do trabalhador rural (Lei 588973 e Decreto 73.62674), os empregados são amparados pelos princípios da agroecologia, que consiste numa agricultura familiar socialmente justa, economicamente viável e ecologicamente sustentável.   

“Na roça, eu trabalhava de qualquer jeito: de sandálias, sem luva, mexendo com agrotóxicos e consumindo produtos com veneno. Tanto vi muitos acidentes, como tenho muitas cicatrizes, inclusive um problema na visão até hoje devido ao pó da cana. Na construção civil, também corri muitos riscos”, conta sem entusiasmo Edmilson.

Agora, tanto ele como outras duas famílias desfrutam de uma melhor qualidade de vida, e além de segurança, mantêm alinhadas suas cinco saúdes: física, financeira, mental, familiar e socialecológica.   

Cada família reside em casa com dois quartos, banheiro, cozinha, sala, água encanada e energia, sem precisar pagar nada, no próprio Sítio Aldeia Verde. Elas também consomem o que plantam: alimentos orgânicos, completamente saudáveis, livres de agrotóxicos, sem desconto algum no salário por esses benefícios, que não param por aí. A paisagem multicor e diversificada pelo cultivo de várias culturas, o ar puro, os sons, cores e formas genuínas da natureza não lembra em nada o caos urbano, que fica a menos de 2km dali – o sítio está localizado em Maceió e é a única propriedade que produz alimentos orgânicos, certificada pelo Sebrae na capital alagoana.  

Práticas agroecológicas renovam visão do mundo

Para os funcionários, as práticas agroecológicas reciclaram conceitos e permitiram uma nova visão do mundo e melhor relação com a natureza. Eles aprendem a fazer compostagem e a cultivar diversos alimentos, como sapoti, jenipapo, coco, manga, maracujá, tomate, cana, graviola, hortaliças, verduras, ovinos, caprinos e, outras diversas culturas tudo de maneira orgânica, ou seja, sem agredir o meio ambiente.

A produção é comercializada na Feira Agroecológica, que é realizada todas às sextas-feiras ao lado do Mercado de Jaraguá; para consumo próprio das famílias; e também vendido para uma indústria de sorvete alagoana.

“A fruta orgânica é mais saborosa, mais resistente e de maior durabilidade. É muito bom comer com segurança”, destaca Alessandro.

Revolução agroecológica

O agrônomo Ricardo Ramalho também coordena projetos de agroecologia na ONG Movimento Minha Terra (que mudará o nome para Instituto Terra Viva) no interior do Estado. Ele e sua equipe estão promovendo uma verdadeira revolução agroecológica para mais de mil famílias.

Ricardo Ramalho coordenador de projetos agroecológicos

“Coube ao Movimento Minha Terra (MMT) iniciar o Plano Brasil Sem Miséria na agricultura familiar para erradicar a extrema pobreza em seu  meio. Com recursos e apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) aplicamos uma metodologia definida com base na transição agroecológica. Foram selecionadas 1.120 famílias, em 12 municípios do Agreste Alagoano, para promover essa evolução. Tendo como instrumento principal um fomento no valor de R$ 2.400,00/família, o objetivo é a denominada “inclusão produtiva” dessas pessoas, ou seja, que passem a produzir, de forma planejada e assistida tecnicamente, de modo a se afastarem da miséria”, explica.

Após 18 meses, os resultados são animadores. As famílias demonstraram ter capacidade de produzir, desde que sejam orientadas corretamente. Muitos projetos limitam-se a medir seus resultados pelo crescimento da renda familiar, desprezando os efeitos sociais e ambientais.

Segundo o coordenador, a proposta não é essa. “O que buscamos é a inclusão produtiva, mas acrescentando ganhos sociais e ambientais às comunidades. Assim, estamos apurando indicadores que já refletem, sobretudo, como melhoramos a qualidade de vida das famílias. Esse quadro, ainda não definitivo, aponta para o sucesso do projeto, que é de todos nós”.

As famílias foram capacitadas em cursos teóricos e aulas práticas, nos quais tiveram a orientação sobre a criação de galinhas, ovelhas, cabras, porcos e atividades agrícolas da região com ênfase em hortaliças. Elas escolheram as culturas que iriam desenvolver e receberam, cada uma, um incentivo de R$ 2.400, dividido em três parcelas, liberadas após a supervisão dos técnicos, que comprovam a aplicação do dinheiro da forma como foi planejada.

Durante fiscalização in loco, o técnico do MDA, Guilherme Tavira, atestou que o contrato está sendo executado em conformidade com as exigências contratuais e elogiou o trabalho da equipe do MMT. “Destaca-se o empenho dos técnicos em executar projetos que aumentassem a autonomia de renda das famílias e que fossem ambientalmente sustentáveis, com destaque para construção de círculos de bananeira para tratamento de resíduo sólido animal e uso de defensivos naturais, como urina de vaca diluída, para proteção de plantações. Verificou-se também o esforço da instituição em articular outras políticas públicas, como milho subsidiado da Conab, apoio de CRAS/CREAS, cisternas, habitação rural, etc, para auxiliar no projeto produtivo ou na melhoria de qualidade de vida das famílias”, diz.

Erivaldo Oliveira, foi um dos moradores que aumentou sua produção e renda

Agricultores capacitados

Os agricultores Erivaldo Martins Oliveira, que mora no povoado Sítio Amaro, em Palmeira dos Índios, e Edivaldo Alves Santos, em Sítio Novo, de Feira Grande, investiram a verba do projeto em kits de irrigação e, com isso, aumentaram sua produção e renda. “Antes era manual: eu tinha mais trabalho e menos plantio. Em pouco tempo, aumentei em 10%. Penso, agora, em investir em galinhas”, conta Erivaldo. Para Edivaldo, os benefícios foram ainda melhores. “Estava plantando fumo. Era muito ruim. Com o investimento na irrigação, estou consumindo os alimentos e vendendo na feira”, comemora. 

Dados

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a agricultura familiar é responsável por 77% dos empregos no setor agrícola. No agronegócio, a exploração do trabalhador rural, até de maneira escrava, é uma prática comum.

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), dos 11 setores que empregam, o Agrícola é o 4º maior em ações fiscais, perdendo para Comércio, Construção Civil e Indústria. No entanto, vale ressaltar que o 1º colocado emprega mais de 2,5 milhões de trabalhadores, enquanto no Agrícola o número é de aproximadamente 828 mil. O setor também apresenta o segundo maior registro de notificações e o terceiro em autuações.

Em Alagoas, onde predomina a agropecuária e o cultivo da cana-de-açúcar (monocultura) em grandes latifúndios, foram gerados 21 empregos entre os meses de janeiro e fevereiro deste ano, em contrapartida, foram demitidos 26 trabalhadores do setor, conforme dados do MTE.

Agroecologia

No Brasil, o segmento é ainda tímido, tanto no que diz respeito ao número de propriedades que passaram pelo processo de transição, quanto à projeção de seus produtos no mercado interno. Porém, com a promoção e divulgação cada vez mais constantes da agroecologia esse nicho, ainda predominantemente hortifrutigranjeito, tende a crescer. Ações governamentais, mesmo que incipientes, também buscam reforçar esse laço com a agroecologia, seja através do financiamento de projetos de redes e ONGs ou de linhas de crédito diretas através do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). 

 

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